Humberto Sales
Devido à prolongada estiagem o principal reservatório de Caicó, o Itans, armazena um volume de água de apenas 3% da sua capacidade
A venda de água a carros-pipa em
Caicó deverá ser suspensa por recomendação dos Ministérios Públicos Federal e
Estadual feita à Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte (Caern).
Distante 275 quilômetros de Natal, a cidade enfrenta problemas com a
escassez de chuvas e está em sistema de rodízio no abastecimento de água, com o
principal reservatório, o Itans a apenas 3% da capacidade total. Segundo
informações da Caern repassadas ao MPF, somente nos primeiros 21 dias
deste mês, 1,17 milhão de litros foram vendidos a compradores particulares
avulsos. Além de retirar água do sistema, a venda é indiscriminada e
impede o acesso da população ao líquido que chega a ser revendido por até dez
vezes do valor.
O documento aponta que , além de
interromper a comercialização avulsa de água em pontos de captação daquela
cidade, a Caern terá que destinar todo o volume à rede de abastecimento
de água. “A medida preventiva busca priorizar o consumo humano na distribuição
e abastecimento de água e evitar este comércio paralelo, com a adequação da
Caern”, disse o procurador da República Bruno Lamenha - que assina a
recomendação conjunta com a Promotoria de Justiça de Caicó.
A prática foi constatada em vistoria
realizada pelos órgãos fiscalizadores na última segunda-feira, dia 21. Uma
tomada de preço com quatro destes fornecedores particulares, conta o
procurador, mostra que o metro cúbico de água comprado a Caern por R$
4,00 é revendido por até R$ 40,00. “Isso incita um mercado paralelo. Recebemos
várias denúncias que o valor abusivo impede o acesso da população a água, que é
retirada do sistema. Não há como pagar”, frisa Lamenha.
O procedimento do MPF foi realizado 80 dias
depois da gerência regional da Caern em Caicó solicitar à direção da
companhia a suspensão deste tipo de serviço, em 1º de julho. Tal requerimento
buscava o ordenamento e evitar prejuízos gerados com o congestionamento de
carros-pipa no local, que acabam travando a circulação dos veículos da Caern e
atrasando a entrega de água em cidades vizinhas. “Até hoje, o
requerimento não foi acatado”, afirma.
A suspensão deve perdurar até a normalização do
abastecimento por parte da Caern. Com o sistema de rodízio, algumas comunidades
chegam a passar até 10 dias sem o fornecimento d’água. O documento
enviado à Caern estabelece prazo de dois úteis, a partir do recebimento,
para a companhia esclarecer as medidas adotadas. Estamos atacando a venda
avulsa a pipeiros particulares, não o abastecimento por carros-pipa mantido
pela Companhia”, pondera Lamenha.
Desde o início de setembro a adutora Manoel
Torres (que recebe água do Rio Piranhas-Açu para atender os municípios de
Caicó, São Fernando, Timbaúba dos Batistas e Jardim de Piranhas) não alcança o
nível mínimo operacional para captação, devido “à longa estiagem e à falta de
planejamento dos entes públicos”, reforça o MPF e o MPRN. A assessoria de
imprensa da Caern informou que o setor jurídico prestará as informações e que
as vendas já haviam sido interrompidas em atendimento por uma decisão
interna, anterior ao procedimento.
Da Tribuna do Norte
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