Cedida
Justiça. Essa palavra define a esperança de duas mães que se depararam com o maior drama de suas vidas – as filhas teriam sido abusadas pelo motorista contratado para transporte escolar nos percursos entre as casas delas e as respectivas unidades de ensino onde estudam em Mossoró. O caso ganhou repercussão na quarta-feira passada, 28, quando a família de uma das vítimas reforçou as acusações contra o suspeito. Mesmo ainda abaladas pelos supostos crimes, as mães decidiram abrir o coração, relatando o sofrimento acarretado pelo possível desrespeito às menores.
As mães concederam entrevista à GAZETA DO OESTE, durante a tarde de sexta-feira, 30 de outubro. Na oportunidade, pediram que tivessem as identidades preservadas, assim como as filhas, uma de 9 anos e outra de 8 anos, que também serão resguardadas.
A mãe da menina de 9 anos afirma que a filha foi exposta à perversão do suspeito. Ela conta que descobriu os possíveis abusos sexuais a partir de uma conversa entre sua sobrinha e a suposta vítima.
“No sábado, dia 3 de outubro, minha filha chamou minha sobrinha para conversar. Aí ela começou a contar que o homem que a transportava para a escola, que, segundo me passaram, na hora da contratação, que era de confiança, evangélico, casado, pai de dois rapazes, estava abusando sexualmente dela. Então, ela contou pra gente, chorando muito, com vergonha do que estava acontecendo. A minha primeira atitude foi chamar um advogado, para pedir orientações com relação ao assunto. Então, ele [o advogado] me falou que era para conversar primeiro com o pai. Depois, fomos à delegacia, onde minha filha contou os detalhes, assim como contou em casa”, disse a mãe.
A mãe relatou que, à medida que o tempo transcorria, após os pais tomarem conhecimento do ocorrido, a filha de 9 anos se lembrava das cenas terríveis que vivenciou. “O que ela contou para mim, contou para o médico do Itep, para o delegado. Minha filha não mudou o teor do assunto. Ela só ia acrescentando detalhes, porque ia lembrando dos fatos. Era como se passasse um flash na cabeça dela. Cada vez, ela ia lembrando um pouco, mas, hora nenhuma, entrou em contradição. Ela não tinha como está inventando”, frisou.
Essa mãe deu entrada, através de um Boletim de Ocorrência, na delegacia no último dia 5 de outubro. Ela foi atendida pelo titular da 1ª Delegacia da Polícia Civil, no Alto de São Manoel, em Mossoró, Rafael Lins. “Quando eu falei para o delegado, ele disse que iria ouvir as testemunhas, que teria que ter provas, mas não tinha como ter provas, se o motorista fazia isso [o suposto crime] a sós com ela, no caminho da escola. Algumas vezes, ele levou minha filha para a casa dele e fazia isso lá também”, frisou.
Ela também informou que, na mesma semana, a filha foi submetida a exame no Instituto Técnico-científico de Polícia (ITEP). “Logo de início, eu queria que o médico do Itep me desse um parecer, uma vez que o laudo só saia em 15 dias. O médico me disse que se havia ocorrido alguma lesão, tinha sido superficial e teria cicatrizado com o tempo”, destaca.
“Houve alguns toques em minha filha. Ele [o suspeito] ameaçava minha filha para que não contasse, e dizia a ela que, se fizesse isso, ela não sabia do que ele era capaz de fazer. ‘Você’ falando uma coisa dessa, um homem para uma criança de nove anos de idade, com certeza, ela não iria contar. Isso começou desde o segundo dia de aula, desde fevereiro, que foi quando ele começou a transportá-la para a escola. Aí, durante esse período, ela não contou por medo, porque ele sempre ameaçava minha filha”, acrescenta.
Questionada se sabia quais os procedimentos que seriam adotados pela delegacia responsável, a mãe não tinha resposta. “Na realidade, eu não sei o procedimento agora. Ele [o suspeito] foi ouvido. A mãe da outra vítima deve ser ouvida também. No dia 5 de novembro, fará um mês que eu dei entrada com o Boletim de Ocorrência e, até agora, nada foi definido. Eu sei que o processo foi para a Justiça, o delegado me falou”, disse.
Sobre o laudo do Itep, a mãe foi enfática. “O laudo já saiu. Não sei o que diz exatamente, mas o que o médico disse para mim é que, se houve lesão, foi apenas superficial e já cicatrizou. O que ficou abalado foi o psicológico. Ele fez muita coisa com minha filha. Não houve o ato em si, mas outras coisas que ele fez”, reforça.
REAÇÃO
A reação da mãe quando soube do suposto crime foi de revolta. “Eu tive um sentimento de indignação. Era ela contando, e eu correndo para o banheiro para vomitar. Aqui todo mundo passou mal. Minha mãe dizendo que estava sentido uma dor, que ia ter um infarto. A gente vê nos jornais, assiste na televisão, mas, quando é com a gente, é muito diferente. Ele passou segurança para a gente. Cheguei a ir com eles no carro, mas ele [o suspeito] não ia fazer nada na minha frente. Ele tentava conquistar a amizade de minha filha, dando bala, chocolate, coisa que todo pedófilo faz. Fui parar no hospital. Minha pressão subiu e eu nunca tive pressão alta. Tá sendo horrível mesmo pra gente”, declarou.
Enquanto, as questões legais estão em andamento, a menina de 9 anos ainda se mostra retraída. “Ela ainda está muito acuada. Ela está isolada. Não quer interagir com ninguém, nem mesmo da família ela quer estar perto”, disse a mãe. Consciente dos danos que teriam sido causados pelo suspeito, a mãe espera por justiça. “Eu espero que ele seja preso, condenado. Quero que ele pague pelo que fez. O trauma que ele causou na minha vida, na vida da minha filha. É uma coisa que ela vai levar para o resto da vida. Ela pode até esquecer, esquecer não, vai dar uma aliviada, mas é algo que ela vai levar para o resto da vida”, salientou.
A PRÁTICA
Segundo a mãe, a filha relatou que, desde o segundo dia de aula, os abusos aconteciam: “Quando ela ia para a escola, ficava sozinha com ele no carro. No entanto, voltavam com outras crianças. Quando o menino que era sobrinho dele, não estava, ele realizava as práticas na presença das duas vítimas, uma sabia da outra”, disse se referindo às duas supostas vítimas.
‘Que a Justiça coloque ele atrás das grades’, diz mãe
O pesadelo da mãe da outra vítima, uma menina de 8 anos, começou, após receber um telefonema.
“Dia 26 deste mês ela [a mãe da criança de 9 anos] ligou para mim, perguntando se o motorista ainda estava levando minha filha. Perguntei o que estava havendo. Ela disse que eu fosse à casa dela, para conversar. Eu insisti que ela dissesse o que era. Percebi logo, pela voz dela. Eu conversando com minha filha, perguntei se o motorista estava fazendo algo com ela. Então, minha filha contou que ele tocava nas partes íntimas dela. Ele fazia isso dentro do carro”, relatou.
No último dia 28 de outubro, a menina de 8 anos esteve também na 1ª Delegacia, no Alto de São Manoel. “Ela contou tudo para o delegado, com todos os detalhes, com muita certeza”, disse a mãe.
Ainda de acordo com a mãe, no mesmo dia, a família foi ao Itep e o médico teria dito que o suspeito havia colocado muito medo na menina. “O médico perguntou para minha filha: Você tem medo de quê? Ela respondeu que tinha medo daquilo tudo não acabar. O médico disse ainda que ele [o suspeito] colocou muita culpa nela, fez com que ela achasse que era culpada pela situação. Ele dizia que minha filha não contasse nem para mim e nem para o pai, porque senão nós nunca deixaríamos ela ir para a escola e iríamos colocá-la de castigo. Ela ficava com medo e não dormia bem. Já ontem [quinta-feira passada] à noite, ela estava com pesadelos, dizendo sai, sai, não quero. Com certeza, era ela sonhando com a situação”, acrescentou.
Segundo a mãe dessa suposta vítima do motorista, “os exames apontaram que o pior não aconteceu. Mas os toques aconteceram, assim como a outra”. Chocada com o possível crime, essa mãe ainda espera o momento para depor. “Eu ainda vou depor. Meu marido foi depor ontem [quinta-feira passada], mas acredito que eu ainda vou depor”, declarou.
Essa mãe também assegura que os abusos teriam sido iniciados em fevereiro deste ano. Ela diz acreditar que outras pessoas podem ter enfrentado o mesmo tipo de situação. “É sentimento de muita tristeza, muita revolta. Uma menina de oito anos passar por isso. Há dez anos, ele [o suspeito] conhece a gente no bairro onde moramos. Ele conhece meu marido, chegaram a trabalhar como mototáxi”. Sobre o estado atual da filha: “Nessa semana [semana passada], minha filha não foi à escola. Ontem [quinta-feira passada], ela saiu mais a gente, mas ficou assustada. Ficou assustada com a grande quantidade de pessoas”, disse.
Sobre o que espera para o suspeito, a mãe dessa menina de 8 anos expressou toda sede de justiça. “Que a Justiça coloque ele atrás das grades, que é o lugar dele, para que nunca mais faça isso com criança nenhuma. Caso contrário, ele continuará praticando esse tipo de crime”, finalizou.
DELEGACIA
Nossa reportagem tentou contato com o delegado Rafael Lins, mas não conseguiu localizá-lo. No entanto, na quarta-feira passada, 28, em entrevista à imprensa local, ele disse que o inquérito de uma primeira suposta vítima estava em fase de conclusão, para posterior remessa à Justiça, mas que, no dia 28 de outubro, havia aparecido outra menor que teria sido afetada também pelas possíveis práticas criminosas. Na oportunidade, o titular da 1ª Delegacia declarou ainda que foram registrados depoimentos coerentes e seguros. “Vamos juntar elementos para ver se é caso de indiciamento ou não e também a questão da representação pela prisão. Vamos analisar tudo isso, para remeter para a Justiça”, frisou.
Do Jornal Gazeta do Oeste
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